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Quando comecei a me interessar pelo minimalismo, percebi que havia uma infinidade de produtos sendo vendidos como essenciais para quem desejava viver uma vida mais simples e com menos ruído tecnológico. Um celular minimalista, um computador minimalista, uma escrivaninha minimalista, uma câmera digital, um reprodutor de música dedicado... Parecia que era preciso comprar uma nova identidade para, enfim, viver o minimalismo.

Depois de alguns anos, percebi que não preciso de nada disso.

Tenho um smartphone comum, que paguei barato, e nele não há redes sociais, com exceção do Reddit. Passo pouquíssimo tempo no aparelho - geralmente menos de duas horas por dia. No tempo livre comecei a frequentar a academia, fazer caminhadas e ler mais. No trabalho, aproveito os intervalos para continuar um livro, pela manhã, as vezes faço o mesmo antes mesmo de começar o dia, me sento ao sol e vou ler.

Foi então que percebi que a estética foi o que me atraiu para o minimalismo, mas não é ela que o sustenta. Uma casa com poucos objetos ainda me transmite uma enorme sensação de liberdade, como se o espaço respirasse junto comigo. Gosto dessa estética e espero um dia viver em um ambiente assim. Mas hoje entendo que ela é apenas uma consequência, não o objetivo.

Também comecei a questionar outras coisas. Tenho poucas roupas, um celular simples com android e praticamente nada me faz sentir falta de trocar esses objetos. Então, será que eu realmente preciso de uma câmera digital para fotografar? De um novo reprodutor de música? Ou apenas estou sendo convencido de que esses produtos representam uma vida mais simples?

Às vezes sinto que a estética minimalista também se tornou um mercado. Não compramos apenas um objeto, compramos a ideia de que aquele objeto nos aproxima de um determinado estilo de vida. É como alguns YouTubers que transformam a própria rotina em conteúdo: registram cada detalhe do dia para mostrar como vivem com pouco. Existe uma certa ironia nisso. Um estilo de vida que deveria ser menos performático acaba sendo transformado em mais um espetáculo para ser consumido. "Olhe para mim ouvindo música no meu Discman enquanto me sento no chão."

Hoje, quando penso em minimalismo, penso muito menos nos objetos e muito mais no espaço que eles ocupam na minha mente. Se um smartphone comum já atende às minhas necessidades, talvez o minimalismo que eu procurava nunca estivesse nas coisas que eu ainda não tinha, mas na tranquilidade de perceber que elas nunca me fizeram falta.


Uma vez que reduzi o tempo investido em ambientes virtuais, principalmente nas redes sociais, comecei a ressignificar a minha rotina. Passei a me perguntar como deveria preencher esse tempo que agora me sobrava e que antes eu sequer percebia existir, pois era completamente sugado pela tela do meu smartphone.

Quando parei de rolar o feed, finalmente voltei a ter tempo para os meus próprios pensamentos. Passei a pensar mais alto e consegui ouvir a enxurrada de ideias que, até então, era soterrada por informações inúteis.

Isso foi um pouco assustador no início. Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha a sensação de não estar fazendo nada. E, sendo bem franco com você, essa sensação ainda era muito melhor do que gastar horas em discussões que não levam a lugar algum. Enquanto estava conectado, eu sentia uma urgência constante de compartilhar, curtir e participar de todo assunto do momento. Era como se eu precisasse ter uma opinião sobre tudo e sobre todos. Hoje percebo que eu confundia participação com presença. Estava presente em todos os debates, mas ausente da minha própria rotina. Não é a primeira vez que volto a essa discussão sobre as redes sociais, mas, por ser um tema tão presente na minha vida, acabo refletindo sobre ele com frequência. Depois de passar tanto tempo longe delas, percebi que a forma como eu me relacionava com essas plataformas havia mudado completamente. Deixei de enxergá-las como um lugar para me conectar com pessoas e passei a vê-las como ambientes construídos para disputar a minha atenção a qualquer custo. O Twitter é praticamente a única rede social que ainda utilizo, mas não mais por meio de um perfil pessoal, e sim pelo perfil do meu site de games. Mesmo assim, de vez em quando ainda escorrego e acabo entrando em discussões que, no fim das contas, não acrescentam absolutamente nada à minha vida. O mais curioso é perceber como esse comportamento parece ser incentivado pelas próprias plataformas. Hoje, até mesmo o conflito virou produto. Quanto mais um assunto gera engajamento, mais ele é impulsionado, repetido e entregue a novas pessoas. Somos expostos às mesmas opiniões, às mesmas polêmicas e, muitas vezes, aos mesmos vídeos, como se estivéssemos presos em um ciclo que se alimenta da nossa atenção. Talvez seja por isso que o conceito de rede social tenha perdido tanto sentido para mim. Quando deixei de participar dessa corrida constante por atenção, percebi que ganhei algo muito mais valioso: tempo para pensar, para observar e, principalmente, para estar presente na minha própria vida. Depois de horas rolando a tela, dificilmente consigo me lembrar da maior parte do que vi. Em compensação, quando estou longe dessas plataformas, a vida parece seguir um ritmo diferente. Mais lento. Mais íntimo. Tenho tempo para conversar com a minha família, apreciar a companhia de quem amo e viver momentos que antes passavam despercebidos. Recentemente, meu filho me chamou algumas vezes enquanto eu estava diante do notebook. Respondi sem tirar os olhos da tela. Em determinado momento, ele comentou que eu nunca olhava para ele quando respondia. Aquilo doeu. Não porque ele estivesse errado, mas porque aquele definitivamente não era o exemplo que eu queria dar. Quero estar presente na vida dele, e não apenas ocupar espaço na lembrança de sua infância como alguém que sempre estava ali fisicamente, mas com a atenção voltada para outro lugar. Cito esse episódio porque ele me fez perceber que o problema nunca foi apenas o smartphone ou as redes sociais. As telas estão por toda parte e competem silenciosamente pelo nosso tempo e pela nossa atenção. Não acredito que a solução seja eliminá-las da nossa vida, mas aprender a fazer pausas. Pausas para reencontrarmos o silêncio, para ouvirmos os nossos próprios pensamentos e, principalmente, para estarmos verdadeiramente presentes com as pessoas que amamos.


Eu não diria que me tornei uma pessoa melhor apenas porque decidi me desvencilhar das redes sociais, mas sim que finalmente tenho controle quanto as decisões que tomo sobre as redes sociais. Não é mais apenas um impulso aleatório, e sim uma escolha, o que as big tech nunca poderão tirar de mim.




Dedicar um tempo para brincadeiras com meu filho tem sido importante — mas muito mais importante para ele. Afinal, estamos reforçando nossos laços e criando memórias que certamente ele levará para a vida.

O engraçado é que, apesar de pensar sobre isso, não é incomum que às vezes eu simplesmente não esteja no clima de brincar. E, quando digo isso a ele, posso ver em seus olhos o desapontamento, que vem acompanhado de reclamações de que eu não brinco o suficiente com ele.

Tenho medo de perguntar o que seria “o suficiente”, pois, com tanto tempo livre nas férias, muito provavelmente isso significaria um dia inteiro sentados, brincando com seus brinquedos e pelúcias.

Quando estamos brincando juntos, não consigo deixar de visualizar o quanto ele cresceu, como está se desenvolvendo bem e como é criativo — conseguindo elaborar situações que replicam o mundo adulto, mas dentro de uma visão mais pura e inocente do que é essa vida.

Não posso deixar de citar como me divirto quando ele tenta falar sobre o sexo feminino. Ao dizer que seu boneco tinha uma namorada, e quando o indaguei sobre o que sabia a respeito de namoro, ele ficou vermelho e, rindo, me disse que era quando um homem e uma mulher se beijavam — caindo na risada logo em seguida.

Essa experiência com ele me dá uma certa ideia de como deve ter sido para os meus pais, que também me assistiram enquanto eu crescia. Será que eles conseguiram curtir esse processo como eu aprecio o processo do meu filho?

Essas perguntas obviamente não terão uma resposta genuína, até porque a ação deles para comigo me passava uma impressão diferente. Ou talvez eu tenha me rebelado muito cedo.

A lição que tiro disso, como filho de um lar complicado, tento ao máximo não replicar as ações que tanto me machucaram, mas ainda assim cometo erros e excessos as vezes, o que faz com que eu tente me redimir sendo alguém melhor para o meu filho, um exemplo melhor do que o que tive.

Talvez essa seja a função de um pai: tentar ser melhor e dar o suporte necessário para que seu filho seja melhor do que você foi.


Não sei dizer se isso pode estar relacionado à idade, mas percebi que algo mudou. Atividades que antes eu considerava prazerosas parecem ter perdido um pouco do seu apelo.

Ficar sentado em frente à televisão jogando deixou de ser uma experiência agradável. Agora, me sinto como se precisasse estar em qualquer outro lugar, exceto ali, jogando. Surge a sensação de que estou perdendo tempo, quando poderia estar fazendo algo que deixasse algum rastro.

O problema é que, enquanto faço esses questionamentos, acabo me vendo com a TV ligada, olhando para qualquer coisa, enquanto o tempo vai passando. O que eu deveria fazer? Por que tenho essa sensação de que nenhuma outra atividade parece capaz de oferecer a mesma dose de estímulo que antes me satisfazia?

Não sei se isso tem fundamento no tipo de leitura que venho fazendo, mas é inegável que ela contribuiu para uma nova perspectiva sobre a vida — uma em que o prazer parece precisar vir do ato de produzir algo. E, quando falo em produzir, não me refiro a desempenho ou rendimento, mas à sensação de ter feito algo, mesmo que pequeno, para mim mesmo.

Talvez concluir a leitura de um livro, fazer uma atividade ao ar livre, escrever um texto para o site ou simplesmente passar mais tempo com a família. Tenho pensado bastante sobre o valor que cada uma dessas atividades tem para mim.

Certamente não tenho todas as respostas para os meus próprios questionamentos, mas, de fato, hoje começo a olhar para o que faço com um foco maior no valor de cada uma dessas atividades.

Apesar de ter me afastado das redes sociais mais populares, como Instagram, Facebook, Twitter/X e Bluesky, o WhatsApp — talvez por ser um dos aplicativos de mensagens mais usados — também acaba exercendo o papel de rede social, principalmente por meio dos grupos dos quais todos nós, em algum momento, fazemos parte.

Nesse ponto, meu caso talvez não seja diferente do seu. Você participa de um grupo específico e se depara com pessoas debatendo política como se fossem agentes políticos ferrenhos, cabos eleitorais ou especialistas em absolutamente tudo. Na internet, todos parecem se travestir de especialistas nos mais diversos assuntos, e acabar envolvido em alguma discussão se torna algo muito fácil.

Por conta disso, queria fazer uma provocação: vocês já perceberam que muitas dessas discussões não levam a lugar algum? Ainda assim, nos sentimos presos à ideia de que precisamos conviver com essas pessoas no ambiente virtual.

Eu sou alguém que aprecia opiniões contrárias às minhas, principalmente quando são bem embasadas, porque elas me oferecem um ponto de vista diferente daquele ao qual cheguei. Acredito que isso enriquece o conhecimento. O problema é que, quando esses debates acontecem em espaços como grupos de amigos, jogos ou futebol, na grande maioria das vezes eles descambam para o senso comum. Apenas uma linha de pensamento passa a ser vista como correta, enquanto qualquer posição diferente é tratada como um erro.

O sentimento que tenho é o de que, ao criar uma linha de pensamento, você automaticamente precisa vestir a camisa de um time para ser aceito em determinado grupo. O ponto é que não quero fazer parte de um time, tampouco acredito que exista apenas um lado certo. O ser humano é complexo demais para ser reduzido a rótulos em uma briga virtual.

Quando dizem que a internet deu voz ao povo, logo penso que com isso veio pessoas que falam muito, mas não tem nada realmente relevante a ser dito, que só repetem aquilo que é fonte de crença do seu time e nada mais. Sem quaisquer provocação realmente interessante, apenas mais do mesmo para agradar a sua torcida.

Não é incomum encontrar influenciadores que não possuem base acadêmica ou qualquer aprofundamento real no assunto que defendem, mas que ainda assim ocupam espaços centrais no debate. E talvez seja justamente por isso que tantos diálogos terminem sem avanço algum.

O fato de eu não ter resposta para tudo é o que me incentiva a continuar buscando conhecimento por meio da leitura, e quanto mais conhecimento você busca, menos me sinto parte de uma torcida organizada.

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