Faz algum tempo venho pensando sobre como trocamos a presença fĂsica pela presença online, onde as curtidas passaram a importar como se fossem uma via de confirmaĂ§Ă£o da nossa prĂ³pria existĂªncia.
Isso nĂ£o Ă© curioso? Ter que estar presente nas redes sociais para ser visto e lembrado, enquanto estamos cercados de pessoas todos os dias — em casa, a caminho do trabalho, dentro de um coletivo ou mesmo no ambiente profissional — e ainda assim preferimos tratar com o outro por meio de grupos no WhatsApp.
Pelo menos no ambiente onde trabalho isso acontece com frequĂªncia, e eu acho um pouco triste perceber como nossas relações mudaram por causa da tecnologia.
Pensar sobre isso me fez começar a prestar mais atenĂ§Ă£o ao que estĂ¡ Ă minha volta. Tenho tentado priorizar o tempo com amigos e familiares e, consequentemente, reduzir o tempo investido no celular. Esse movimento acabou se refletindo atĂ© em outros textos que escrevi, como aquele em que falo mais a fundo sobre a nossa dependĂªncia dos aparelhos e o impacto que isso tem no modo como vivemos e nos relacionamos. AliĂ¡s, ele pode ser lido aqui: Por que meu filho nĂ£o vai crescer com um pai viciado em redes sociais.
Eu digo isso com propriedade — como uma vĂtima desse lado vil da tecnologia. HĂ¡ alguns anos, evitava qualquer tipo de evento social em que precisasse interagir por muito tempo com alguĂ©m. Meus familiares costumavam se irritar, pois sempre que algum evento era anunciado, eu perguntava se a minha presença realmente era imprescindĂvel.
Trabalho com atendimento ao pĂºblico, e minha “bateria social” era drenada todos os dias. No fim do expediente, tudo o que eu queria era silĂªncio. Com o tempo, esse hĂ¡bito de evitar contato acabou me isolando mais do que eu imaginava — e, junto com o isolamento, veio uma boa dose de estresse e cansaço mental.
Na Ă©poca, o afastamento parecia uma forma de conforto. Mas quando fui promovido e o contato direto com o pĂºblico diminuiu drasticamente, percebi algo curioso: o silĂªncio que antes me acalmava começou a me incomodar. Depois de quase um ano longe da linha de frente, percebi que me expressar estava mais difĂcil. As palavras pareciam travadas, e atĂ© as conversas simples exigiam esforço.
Foi aĂ que entendi que aquela distĂ¢ncia das pessoas, que eu tanto valorizava, tinha começado a me fazer mal. Senti falta das conversas despretensiosas, do riso fĂ¡cil, das pequenas trocas que pareciam banais — mas que, no fundo, sempre foram o que mantinha tudo mais leve.
Quando tudo mudou
Quando decidi mudar isso — e atĂ© tentar me aproximar mais dos meus colegas de trabalho —, percebi que a oportunidade nĂ£o demorou a aparecer. Um amigo da empresa me convidou para uma reuniĂ£o entre funcionĂ¡rios, algo que eles chamam de “baguncinha”.
Ele fez questĂ£o de explicar que ali era um ambiente onde todos podiam falar as coisas mais absurdas sem julgamentos. “É bagunça, pĂ´!”, ele disse, rindo.
Fiquei relutante por um tempo, mas acabei topando. Era uma chance de conhecer melhor pessoas que eu sĂ³ via de longe pelos corredores.
Pra minha surpresa, tudo fluiu de um jeito leve. Em meio Ă s gargalhadas, percebi o quanto estava bem ali — presente, conectado, de verdade. Foram horas de conversa, risadas e histĂ³rias, sem me preocupar com o que acontecia no mundo digital, nem com quantas curtidas uma piada de mau gosto poderia render. Naquela noite, eu sĂ³ estava ali, me divertindo.
HavĂamos comprado salgados, entĂ£o a sala estava com o ar impregnado de Ă³leo de fritura, enquanto um dos rapazes tirava energĂ©ticos do frigobar, outro contava alguma anedota e alguĂ©m xingava por qualquer motivo.
Terminada a baguncinha, voltei pra casa mais leve e me sentindo realmente feliz. Nunca pensei que me conectar com outras pessoas, no mundo real, pudesse ser tĂ£o prazeroso. Percebi que sentia falta de passar esse tempo acompanhado, e cheguei Ă conclusĂ£o de que, como animais sociais que somos, a internet nunca serĂ¡ capaz de suprir essa conexĂ£o tĂ£o viva que sĂ³ o mundo real Ă© capaz de proporcionar.
Depois desse primeiro encontro, minha relaĂ§Ă£o com o trabalho tambĂ©m melhorou. Agora eu tinha novos amigos por lĂ¡ e, entre uma ida ao banheiro ou ao cafĂ©, podia me deparar com um deles e trocar algumas palavras, ou conversar um pouco na recepĂ§Ă£o nos dias em que chego mais cedo. Tudo isso se tornou importante, porque torna a vida adulta um pouco mais leve.
Compartilhar um pouco dessa reflexĂ£o Ă© o meu modo de lembrar — a mim mesmo e a quem lĂª — que a vida passa rĂ¡pido demais pra ser vivida atrĂ¡s de uma tela.
O que realmente importa ainda acontece fora dela: nas conversas sem pressa, nos olhares, nas presenças que a gente sente mesmo em silencio.