Quando parei de rolar o feed, finalmente voltei a ter tempo para os meus próprios pensamentos. Passei a pensar mais alto e consegui ouvir a enxurrada de ideias que, até então, era soterrada por informações inúteis.
Isso foi um pouco assustador no inÃcio. Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha a sensação de não estar fazendo nada. E, sendo bem franco com você, essa sensação ainda era muito melhor do que gastar horas em discussões que não levam a lugar algum. Enquanto estava conectado, eu sentia uma urgência constante de compartilhar, curtir e participar de todo assunto do momento. Era como se eu precisasse ter uma opinião sobre tudo e sobre todos. Hoje percebo que eu confundia participação com presença. Estava presente em todos os debates, mas ausente da minha própria rotina. Não é a primeira vez que volto a essa discussão sobre as redes sociais, mas, por ser um tema tão presente na minha vida, acabo refletindo sobre ele com frequência. Depois de passar tanto tempo longe delas, percebi que a forma como eu me relacionava com essas plataformas havia mudado completamente. Deixei de enxergá-las como um lugar para me conectar com pessoas e passei a vê-las como ambientes construÃdos para disputar a minha atenção a qualquer custo. O Twitter é praticamente a única rede social que ainda utilizo, mas não mais por meio de um perfil pessoal, e sim pelo perfil do meu site de games. Mesmo assim, de vez em quando ainda escorrego e acabo entrando em discussões que, no fim das contas, não acrescentam absolutamente nada à minha vida. O mais curioso é perceber como esse comportamento parece ser incentivado pelas próprias plataformas. Hoje, até mesmo o conflito virou produto. Quanto mais um assunto gera engajamento, mais ele é impulsionado, repetido e entregue a novas pessoas. Somos expostos à s mesmas opiniões, à s mesmas polêmicas e, muitas vezes, aos mesmos vÃdeos, como se estivéssemos presos em um ciclo que se alimenta da nossa atenção. Talvez seja por isso que o conceito de rede social tenha perdido tanto sentido para mim. Quando deixei de participar dessa corrida constante por atenção, percebi que ganhei algo muito mais valioso: tempo para pensar, para observar e, principalmente, para estar presente na minha própria vida. Depois de horas rolando a tela, dificilmente consigo me lembrar da maior parte do que vi. Em compensação, quando estou longe dessas plataformas, a vida parece seguir um ritmo diferente. Mais lento. Mais Ãntimo. Tenho tempo para conversar com a minha famÃlia, apreciar a companhia de quem amo e viver momentos que antes passavam despercebidos. Recentemente, meu filho me chamou algumas vezes enquanto eu estava diante do notebook. Respondi sem tirar os olhos da tela. Em determinado momento, ele comentou que eu nunca olhava para ele quando respondia. Aquilo doeu. Não porque ele estivesse errado, mas porque aquele definitivamente não era o exemplo que eu queria dar. Quero estar presente na vida dele, e não apenas ocupar espaço na lembrança de sua infância como alguém que sempre estava ali fisicamente, mas com a atenção voltada para outro lugar. Cito esse episódio porque ele me fez perceber que o problema nunca foi apenas o smartphone ou as redes sociais. As telas estão por toda parte e competem silenciosamente pelo nosso tempo e pela nossa atenção. Não acredito que a solução seja eliminá-las da nossa vida, mas aprender a fazer pausas. Pausas para reencontrarmos o silêncio, para ouvirmos os nossos próprios pensamentos e, principalmente, para estarmos verdadeiramente presentes com as pessoas que amamos.
Eu não diria que me tornei uma pessoa melhor apenas porque decidi me desvencilhar das redes sociais, mas sim que finalmente tenho controle quanto as decisões que tomo sobre as redes sociais. Não é mais apenas um impulso aleatório, e sim uma escolha, o que as big tech nunca poderão tirar de mim.

